quinta-feira, dezembro 15, 2011

Seis anos

O céu estava nublado, o vento batia em grande intensidade naquela janela velha de madeira. Decidi trocar minhas roupas. Fui até o quarto e peguei um agasalho, a qual ganhei de presente de aniversário e nunca usara. Meus pensamentos pairavam. Á vista para o mar realmente era o sonho de qualquer um. Morava naquela casa de praia há exatamente vinte dias. As perspectivas eram animadoras se isso não fizesse parte de uma fuga. Um carro do ano, uma casa invejável com direitos a ofurô, champagne, sol e lingeries.
Decidi que seria advogada aos seis anos de idade. Cresci com esta ideia depois de ver um documentário sobre Ovid Butler, o primeiro defensor da abolição da escravatura em 1855. Senti que poderia me enquadrar no índice de escravos e manipulados que precisavam de uma carta de alforria. Queria libertar meus sonhos, minha infância e minha inocência. Sabia que um curso de Direito não resgataria tudo que perdi. Mas poderia servir de consolo para os futuros casos, parecidos com o meu.
Chovia muito, assim como o dia de hoje. Deve ser por este motivo que odeio dias nublados. As cortinas batiam no meu rosto. E eu estava sentada no chão. Com três bonecas de pano, um caderno com aspiral e várias cores de canetas esferográficas. Meu vestidinho azul claro com borboletas rosas, não me deixa esquecer as cores da minha decepção. Seria mais um dia de doces ilusões. Minha mãe foi trabalhar e neste dia não pode me levar para a casa da tia Ritinha, uma amiga da mamãe. Sendo assim me deixou na casa da vovó. Ela sempre me levava a feira mas não sei o motivo deste dia não querer me levar. Vovô estava em casa. E o quarto de visitas era o mais divertido, ficava no antigo sótão. As cortinas eram coloridas. E minhas canetinhas já estavam sem tampinhas. Vovô entrou, me perguntou se eu queria ouvir algumas historinhas. E então me pediu para sentar em seu colo. Ele nunca tinha aberto margem para desconfianças. Me sentei. E então em cada passo do bichinho Pleir, ele passava as suas mãos enrrugadas em meu corpo. Senti algo diferente, vovô estava muito estranho. Seus olhos ficaram vermelhos. E por um momento pensei que ele era o Lobo Mau. Seus braços eram mais fortes do que os meus, que tinham apenas seis anos. A cada tentativa de saída ele me agarrava com maior intensidade. Naquele instante ele fugiu com toda a minha esperança de criança. Mamãe sempre confiou muito nas pessoas.E até os nove anos nunca tinha me dito nada em relação a Pedofilia. Não sei se o pecado é medido em balanças. Mas sempre tive este sentimento de fazer justiça com as minhas próprias mãos. Mãos sujas com do meu próprio sangue. As ameaças vieram. Qualquer horário tinha um passeio a qual o vovô queria me levar. Sempre minhas lágrimas desciam como um não para a mamãe. Mas ela nunca entendia o meu sinal, o meu aviso. No fundo eu pensava que ela queria se livrar de mim. Não existia coragem para gritar ou contar para alguém. Sempre acreditei que poderia perder minha mãezinha. E ela era tudo o que eu tinha. Meus olhos sempre tristes, minhas notas sempre baixas. Os comentários da professora era a lamentação da minha mãe. Foi nesta época que fiz o meu primeiro exame nos olhos. E para a surpresa da minha mãe meus olhos estavam em perfeitas condições. Mamãe não desconfiava de nenhum passeio com o vovô.
Passei a ter medo de avôs e de pais, a qual não conhecia qual era o meu. Após dois anos não queria sair a passeios.
Após sete anos, a primeira decepção da minha mãe: sua filha estava grávida. E para aa minha tristeza perdi o meu bebê. Pensava que ele poderia me ajudar a esquecer dos meus crueis pensamentos. Mas seria angustiante ver parte do meu avô para sempre na minha vida. Decidi não mais lamentar do meu azar.
E com a morte do meu avô decidi me erguer, em meio a todos os destroços da minh'alma. E foi no mesmo clima de luto, que anunciei para a minha mãe o meu fracasso. E então resolvi fugir para fora daquele mundo.
Minha mãe resolveu investir nos meus estudos em um internato em São Paulo. Terminei o meu curso de Direito e passei em um concurso. Comecei a trabalhar como voluntária em um espaço onde mulheres haviam sido molestadas sexualmente. Me casei com um juíz. Mas para querer um homem, realmente ele teve que me ensinar a amá-lo. O meu passado ainda não foi esquecido. Porém, aprendi que Deus nos restaura com a Sua misericódia. Aprendi a perdoar em troca da minha felicidade. E exatamente hoje, minha filha completa seis anos. E nunca mais tive a coragem de voltar no lugar onde passei minha infância. Muito menos naquele sótão escuro, que eu brincava aos meus seis anos.

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